Quarta-feira, 16 de Junho de 2004
O último adeus!
Numa das minhas arrumações de coisas velhas que tenho lá para casa, encontrei um texto que fiz, na altura para a escola, mas que estabeleço agora relação com a realidade de há uns dias atrás em que falava da ideia de suicídio de um amigo meu. A ideia do texto era colocarmo-nos na posição de uma pessoa que se queria matar e expressar os seus pensamentos e sentimentos da forma que quisessemos... eu escolhi o formato de uma carta...

O último adeus!

Lisboa, 9 de Dezembro de 1997



    Adeus mãe! Adeus pai! Eu sei que estão separados, mas espero que se ajudem mutuamente para superar a minha morte. Eu sei. Eu morri sem avisar! Mas... que podia eu fazer? Pode ser que com esta última carta compreendam os motivos porque o fiz.
    Sempre pensaram que estava tudo bem comigo, mas com essa separação pensavam em tudo menos na família, na casa, no trabalho e em mim. Como poderiam saber? Eu sei que é ser egoísta da minha parte, mas podiam ter reparado que as minhas notas desciam e que as minhas noites não eram de sono, mas de choro.
    Tudo isto começou quando um grande amigo meu, se tornou mais do que um simples amigo para mim. Vocês conhecem-no. É o David. Até já o trouxe cá a casa, mas vocês mal lhe prestaram atenção. Não vos censuro. Para falar a verdade ninguém nos prestava atenção. Estávamos sozinhos no mundo.
    A certa altura, ele começou a andar com as chamadas más companhias, que o fizeram mudar completamente, mas nem por isso o deixei de amar. Tentei chamá-lo à razão, mas já lhe tinham feito a "lavagem ao cérebro" e disse-me para eu não o chatear com tolices. Ele era um deles. Irreconhecivel e transformado! A última imagem que tenho dele, foi quando o vi a ser arrastado pela polícia e me disse adeus, com aquele jeito despreocupado dele... devia estar bêbado.
    Depois disso, mal se falava dele na escola. Ele estava morto para todos. Nunca existiu um David, e se existia era um David qualquer coisa. O que me apetecia era dizer-lhe que o nome dele era David Martins. Mas de que valia! Amanhã já se tinham esquecido.
    Eu só pensava que tinha de o ajudar. Era a única que o podia salvar das "garras da bófia", pois até mesmo os seus amigos de "más-ralés" o deixaram à sua dorte. E a pensar que ele os tratava como irmãos. Mas eu não me importo.
    Soube que o pai dele pagou a fiança e ele foi liberto daquela prisão. Porém, não se libertou daquelas "celas desumanas", nas quais os seus amigos teimavam em ficar, arrastando-o consigo.
    Eu juro que fiz tudo o que podia. Mas de nada me serviu. Quando soube que fora morto naquela luta imbecil e para a qual ainda não encontro explicação, dá me uma vontade... Apesar disso lembrou-se de mim. Foi-me entregue um bilhete onde confirmava, no seu último instante de vida, que me amava mais que tudo. E pediu desculpas. E outra vez desculpas. E mais uma vez. Esse bilhete alegrou-me! Ainda o tenho entre as páginas do Amor de Perdição. Ele amava-me! Mas logo me lembrei que a minha felicidade era agora impossível. Ele fora-me arrancado dos braços e não me concederam sequer um beijo de despedida.
    Ainda tentei vingá-lo, mas quem o teria morto? Por isso, pensei que a única forma de o vingar, seria provar que o meu amor por ele era tão grande, que nem os seus amigos lhe conseguiram dar a volta! Mas depressa desisti da ideia.
    Passou um dia, dois dias, uma semana. Era um farrapo humano, sempre pelos cantos escondida a chorar, sem ninguém para me consolar. As faltas apareceram em casa por carta. Mas tu, mãe, pensavas que era mais uma conta, e colocaste-a na secretária do pai, que ainda não se dedicou às contas do mês passado.
    Estava desesperada! Deixei de ir à escola! Afinal, já não ia às aulas... Ia todos os dias ao pardão da praia e ficava lá horas a ver o mar... o David adorava o mar. Uma vez disse-me que queria dar a volta ao mundo num daqueles veleiros... só sonhos.
    À hora de voltar da escola, aparecia em casa e ouvia as discussões diárias. Se estavam separados emocionalmente, porque continuavam na mesma casa?
    Cansei-me de tudo isto e fui para a varanda. Vi ao longe o pôr-do-sol por entre os prédios. Ouvi alguém chamar-me. Era a voz dele, a voz do David. Foi então que pensei de novo naquela ideia que achava absurda. Eu só pensava que tinha de ir ter com ele...
    Não se sintam culpados, pois na minha morte, vocês não têm qualquer culpa. Fui eu quem se lançou no abismo de amar.

Da vossa única filha que apesar de tudo vos adora
Sofia Ferreira (Martins)
1997

publicado por ridufa às 20:22
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